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domingo, 31 de outubro de 2010

Coordenador Hospitalar

Do luto, a possibilidade de salvar outra vida

31 de outubro de 2010. | N° 934
Rafaela Mazzaro
rafaela.mazzaro@an.com.br
Jornal A Notícia - Joinville/SC


O enfermeiro do Hospital Municipal São José, de Joinville, Robson Duarte, 39 anos, tem uma dura missão entre as suas atribuições diárias: informar sobre a morte cerebral de pacientes internados na UTI. Neste caso, a triste notícia vem acompanhada de um consolo para a família e amigos. É que Duarte também é coordenador de transplantes do hospital e é sua função fazer a ponte entre os responsáveis e os possíveis doadores.
Enfermeiro Robson Duarte - Coordenador Hospitalar

A má notícia, no entanto, nem sempre é recebida com serenidade. O mensageiro já teve de lidar com situações adversas, até mesmo de agressividade, por parte de parentes, além de tentativas de transferir a culpa pela fatalidade, o que, segundo ele, é uma reação comum, a chamada fase de negação. “Tentamos dar a notícia sempre para mais de um parente no mesmo momento e nunca por telefone”, afirma o enfermeiro. São cuidados essenciais, que também preparam a família para a possibilidade de ter os órgãos do parente em um potencial transplantado.

O peso de ter que anunciar a perda de alguém nem sempre foi o mesmo para o enfermeiro. No início da carreira, Duarte ainda cultivava um sentimento de impotência perante a morte. Foram necessários cursos de tanatologia e treinamentos específicos para ultrapassar a barreira da frustração profissional. “O profissional precisa estar preparado para a morte. Não pode pensar que poderia ter feito mais pelo paciente, mas ter certeza de que fez tudo o que estava ao seu alcance”, argumenta.

Essa percepção, segundo o enfermeiro, só é conquistada por meio do entendimento do real significado da morte. Mesmo assim, ele admite que, mesmo com o preparo da classe médica, a frustração é inevitável quando se trata de uma morte por fatalidade ou morte prematura. “Quando é uma condição normal da vida, como uma doença, é mais compreensível. Mas quando é motivado por uma tragédia, não tem como não sentir”, comenta.

Pessoalmente e profissionalmente, Duarte encara a morte com muito respeito. Quando ela está relacionada com pessoas próximas, ele mantém a postura serena, mas admite que também tem seu momento de negação. “É impossível não passar por todas as fases da morte”, reforça.

O Hospital Municipal São José de Joinville/SC é um dos maiores captadores do Estado de SC respondendo por 12% do total (SC Transplantes)apurado de Janeiro a Setembro/2010, obviamente, o Enfermeiro Robson e sua equipe também são importantes agentes deste sucesso. 
Hospital Municipal São José de Joinville/SC

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Doação de órgãos: um ato de amor

OPINIÃOJORNAL A NOTÍCIA - Joinville/sc29 de setembro de 2010. | N° 902


Afinal, sempre dei o meu melhor em tudo

ALFREDO LEONARDO PENZ, PROFESSOR E MESTRE EM EDUCAÇÃO E CULTURA



Somos tão ricos e nem percebemos o quanto. Nossa riqueza está tão perfeitamente distribuída, que, às vezes, não nos damos conta de que Deus nos proporcionou a maior de todas as graças: a oportunidade de viver. As faculdades de ver, respirar, trocar ideias e intenções com nossos pares nos completam como seres humanos, dando possibilidades de desenvolvimento. Entretanto, assim como Ele nos deu tal oportunidade, um dia teremos que deixá-la.
Quando partirmos, deixaremos uma riqueza incalculável: além das nossas ações e contribuições para o próximo, para a comunidade e para a humanidade, deixamos também nosso corpo material. Este, sim, de valor inestimável. Nosso coração, córneas, pulmões, rins, fígado, pâncreas, entre outros órgãos, não têm preço. Eles deixam de nos pertencer. Porém, o Criador também nos deu a oportunidade de avalizar todo este tesouro e proporcionar àquelas pessoas que estão na fila dos transplantes a possibilidade de uma vida melhor. Depende de nós direcionarmos o que nos ajudou a bombear nosso sangue, a enxergar, a respirar, de contribuir para o bem-estar dos outros, por meio de um ato de amor e de caridade: a doação de órgãos.
Em um bate-papo com meu irmão pela internet, perguntei-lhe se era a favor ou contra a doação de órgão. Sua resposta foi a seguinte: “Pode pegar tudo, velho. Está aí para ajudar alguém. Não vou mais usar mesmo”.
A maior riqueza da doação de órgãos está na oportunidade de fazer feliz aquele que sofre, além da sua família, pois todos sofrem com a angústia e a impossibilidade direta de ajudar. Quantos corações “mal batidos”? Quantos olhos sem enxergar? Quantas horas de diálise podem ser suplantadas com a doação? Qual a alegria de saber que o outro terá, a partir da sua doação, uma vida saudável?
Depende de nós. É por meio do simples desejo e da enorme vontade de amar o próximo, que podemos fazê-lo, avisando nossos familiares que, após a nossa “partida física”, continuaremos ajudando aqueles que necessitam. A felicidade do receptor é incalculável só em saber que há possibilidade de receber um órgão salvador. Mais do que uma vida, é o seu próprio milagre.

Infelizmente, alguns ainda acreditam que, ao prestar contas após esta vida, devemos nos apresentar completos. Tal pensamento deve ser mais bem ordenado. A ação da natureza se encarrega da decomposição do corpo.

Quanto à minha posição, creio que ficou bem clara. É a mesma do meu brother: “Pode pegar tudo. Está aí para ajudar alguém. Não vou mais usar”. Afinal, sempre dei o meu melhor em tudo. O que não consegui, tentarei mais adiante consertar. 

Mestre Alfredo Leonardo Penz













alfredopenz@yahoo.com.br




sábado, 22 de maio de 2010

FALANDO DE TRANSPLANTE - Parte 3

Parte 3

VAMOS DIRETO AO ASSUNTO!? E O TRANSPLANTE?


      Muito bem, vamos ao que interessa!
      Ao final de 2008, já sentia que as coisas não iam bem, as taxas dos exames voltaram a aumentar, assim como os inchaços e a fadiga. Amarelava a cada dia mais e não conseguia mais viajar sozinha para estar com o Nuno, nem ir visitar meus outros amores, meus filhos, meu genro e minha nora.
       Isso para mim era a morte! Sentia-me cada vez mais impotente e, ao mesmo tempo, a algoz de meu fiel escudeiro, meu amor, meu marido. Não conseguia ser mais sua companheira para nada, muito pelo contrario, aprisionava-o a minha doença, impedindo-o de viver, de se divertir, até.
        Cheguei a confessar ao meu medico, que não tinha mais vontade nem forças para lutar, para enfrentar por mais tempo a lista de espera. Queria desistir do tratamento e esperar a vontade Divina, pois cada vez que meu Meld aumentava também aumentava a distância para o transplante em São Paulo. Então, orientados por ele, tomamos a decisão de procurar outros centros de transplante e desistir de São Paulo.
Campanha em Blumenau depois da calamidade de 2008

      
 É necessário dizer que já há algum tempo, ele insistia que procurássemos ir para Blumenau, Santa Catarina, pois outros pacientes seus já tinham conseguido transplantar com mais rapidez, e com sucesso. Decisão difícil  sair do maior Estado, do maior centro médico do país, e ir para Santa Catarina. E, para piorar, no meio daquele desastre ecológico, que foram as chuvas e desmoronamentos, em novembro de 2008.
       Preocupados em nos apoiar, cada filho puxava a brasa para a sua sardinha. Minha filha, Daniela, arquiteta, achava um absurdo irmos para Blumenau sozinhos, meu filho do meio, Gustavo, brilhante advogado, queria que tentássemos Ribeirão Preto, perto dele, e meu filho caçula, Marcelo, meu lindo bebê de 27anos e engenheiro, achava que minha vontade é que deveria ser respeitada na escolha do local.
O marido Marcondes  
       Após uma “assembléia familiar”, no Natal de 2008, resolvemos consultar os dois lugares. Faríamos uma consulta em Ribeirão e outra em Blumenau, devidamente acompanhados por um filho, para depois decidir onde ficaríamos. Na opinião do meu marido e do meu médico, só havia uma alternativa segura: Blumenau.  
        
  
ENFIM, 2009 CHEGOU !


      Logo após o Ano Novo, conseguimos uma consulta em Ribeirão Preto, também um grande centro transplantador de São Paulo. Meu caso era mesmo o transplante e era possível que durante o ano de 2009 eu conseguisse fazê-lo. Naquela altura isso nos pareceu muito vago, poderia haver casos com Meld maior que o meu ainda na fila, etc.
       Fomos para Blumenau precisamente no dia 19 de janeiro de 2009, de certa forma com o coração na mão, esperando encontrar uma cidade devastada pela tragédia das últimas chuvas e com recursos limitados.
        Não conhecíamos ainda o valor e a persistência desse povo, tão querido, que, mesmo na tragédia, não se entrega, imensamente solidário, que realmente faz do limão uma limonada, pois encontramos uma cidade limpa, organizada, trabalhando a plenos pulmões para seguir em frente e mais uma vez aprender com as dificuldades da vida. Que orgulho de hoje ser Barriga Verde!
        Chegou a hora da consulta com o Dr. Marcelo Nogara (leia entrevista de 2003), Responsável Técnico da Equipe de Transplantes Hepáticos do Hospital Santa Isabel. Estava, no fundo, com muito medo, era a ultima cartada.
        Assim como a maioria dos blumenauenses, Dr. Marcelo transpira confiança e otimismo, e, após a análise  das minhas taxas, veio a boa notícia: provavelmente até julho, no máximo, eu estaria transplantada. Tudo era compatível: cirrose biliar primaria, grupo sanguíneo fácil,  (tipo A+). Meld acima de 17... Só faltava mudar para Blumenau.
        Fiquei assustada com a determinação de meu marido ao marcar imediatamente minha internação para os exames preliminares, para o dia 1 de Fevereiro. Era só o tempo de fechar a casa em nossa cidade e mudar, sabe Deus por quanto tempo.