Tenho 41 anos, 24 anos de casada, 3 filhos, em janeiro de 2009 fui doadora de sangue voluntária no Hemonúcleo da Santa Casa. Minha surpresa foi grande ao descobrir que tinha Hepatite C já há vários anos e sem saber. Na ocasião eu não tinha idéia do significado dessa doença, assim como muitas pessoas, não tinha a menor idéia do que era.
Fui encaminhada então, ao Dr. Hamilton Bonilha, especialista em doenças infecto contagiosas, que me falou sobre ela e o seu tratamento, disse que posso ter contraído há mais de 25 anos através de vacina com revólver (que eram administradas em filas nas escolas) ou de seringas e agulhas mal esterilizadas. Nos anos 60 e 70 ainda não tínhamos seringas descartáveis.
Nunca imaginei o que teria que passar!
Depois de muitos exames iniciei o tratamento, pois esses remédios são caros, só fornecidos pela farmácia de alto custo (SUS), e para receber teria que me submeter à biópsia de fígado. No no meu caso não foi possível, pois havia risco de hemorragia, meu fígado só estava funcionando em 60%. Uma declaração foi feita pelo meu médico e me liberaram os medicamentos.
Posso garantir que é muito sofrimento para uma pessoa passar.
Tomei durante 1 ano: Interferon Peguilado 1 vez por semana, 4 drágeas de Ribavirina por dia e 3 injeções semanais de Eritropoetina para anemia, pois as plaquetas foram caindo muito por causa do tratamento. Fiz controle todos os meses, com exames de laboratório.
Depois de um tempo comecei a perder meu cabelo, e isso só as mulheres imaginam o que significa.
Meu marido é doador há mais de 10 anos e graças a Deus nem ele e nem meus filhos foram infectados.
Nunca havia sentido nada antes de saber da doença, por isso ela é chamada de doença silenciosa. Sabia que tudo isso iria passar, que o tratamento iria acabar e que Deus me carregaria em seus braços a todo momento, pois somente essa força me manteria em pé.
Sempre tive muito medo, na época do tratamento, da palavra transplante , por saber da dificuldade em conseguir um doador compatível.
Não escrevo esse depoimento com intuito de assustar ninguém e sim tentar fazer um alerta para que as pessoas façam exames para detectar hepatite. E para expressar minha indignação por não ser pedido esse tipo de exame quando se faz uma consulta, pede-se hemograma, etc e nunca hepatite, e acho que deveria padrão, pois a descoberta precoce evitaria muito sofrimento.
Gostaria de saber porque essa doença é tão pouco divulgada??Uma em cada 12 pessoas no mundo está infectada e a maioria não sabe. E cerca de 5 milhões de Brasileiros* são portadores do vírus das hepatites B ou C.
Hoje Graças a Deus estou curada!
Dioneia Delgado Lima
Terei ainda que me submeter a exames por 5 anos, pois esse é o tempo necessário para se ter absoluta certeza da cura, mas estou confiante e feliz!!!
Na doação de órgãos para transplantes, o amor à vida e o medo da morte andam juntos, mas nem sempre na mesma direção. Uma família que doa os órgãos de um ente querido falecido, já não tem contato com o temor, porque o pior já aconteceu e nada mais a assusta. O amor e a coragem impulsionam suas decisões e atos. Mas aquela que não doa, talvez tema a morte até depois de ela já ter se consumado. E para aquele que aguarda uma doação, talvez o medo venha depois da angústia, da incerteza, do desalento e principalmente da esperança.
Impossível reproduzir com exatidão a sensação que se tem ao descobrir-se portador de uma doença grave, por exemplo, o câncer.
Cada um terá a sua impressão única, tanto por ser inédita para si, como por ser estritamente pessoal. Diferente mas assemelhada à experiência de saltar de paraquedas ou de ser pai, por serem indescritíveis.
Após o médico me dar a notícia do câncer, eu saí do consultório incrédulo e desorientado.
A primeira novidade aparece ao entrar no carro e ligar o som automaticamente, o CD que há muito não saia de lá. Uma música que antes me falava de tudo e de nada em especial, ou de relacionamentos, de coincidências, casualidades, e era linda, passa a falar apenas de morte, de desesperança, de ausência e até saudade do futuro. Com certeza continua linda, mas agora dói.
Era a música abaixo, de autoria de um “ex-médico” (se é que existe isso) uruguaio chamado Jorge Drexler e exemplifica muito bem o que pretendo demonstrar:
Inoportuna
Tente ouvi-la só para conhecer e preste atenção na letra. Talvez você não seja o seu estilo, mas ele não importa agora.
Em seguida imagine que você acabou de ser informado pelo seu médico sobre a presença de um câncer no fígado, ou seio, ou próstata, ou pulmão. Então a ouça novamente!
Quem já não sabe
o aprenderá depressa:
A vida não para,
não espera, não avisa.
Tantos planos, tantos planos
virando espuma
Tu, por exemplo,
tão a tempo
e tão
inoportuna.
Eram melhores, os dias,
para arriar as velas.
Todo sinal ao meu redor
dizia: cautela.
Quanta estratégia não cumprida.
Aquela noite sem lua.
Tu, por exemplo,
tão bem vinda
e tão
inoportuna.
Quem sabe quando?
Quando é o momento de dizer: "Agora"?
Se tudo ao redor está te gritando:
"Sem demora, sem demora!"
Toda a poesia ensolarada se transforma em “noche sin luna”. Em caminho incerto.
“Tantos planes vueltos espuma”
Então eu mudo de música, pulo adiante e:
“El velo semitransparente
Del desasosiego
Un día se vino a instalar
Entre el mundo y mis ojos.”
La Vida Es Mas Compleja de Lo Que Parece
"O véu semi-transparente
do desassossego,
um dia veio se instalar
entre o mundo e meus olhos"
De novo?
Sim!
E o mesmo ocorre quando nos flagramos expectadores distanciados, de cenas cotidianas antes quase inócuas de tão corriqueiras. Por exemplo, ao vermos nossa família conversando no jantar e não somos parte daquilo. Até as cenas de pequenas birras ou brincadeiras adolescentes entre os filhos, se revestem de roupagem e iluminação mais refinada, porém nos dão uma clara sensação de perda iminente.
O sorriso da esposa é algo etéreo, como tudo o mais. O seu novo corte de cabelo não é algo prazeroso, posto que se desvanecerá em breve.
As reuniões de trabalho com suas emergências inadiáveis, são puro desperdício de intelecto e sentimentos sem o mínimo objetivo, porque as bases e os conceitos estão incorretos.
“Cuánta estrategia incumplida”
Praticamente todos os valores se alteram imediatamente.
E vem a conclusão de que amanhã estas coisas continuarão acontecendo porque elas são reais.
Eu é que me tornei volátil e a qualquer momento posso sumir.
Eu é que perdi a solidez e a constância.
Eu sou um, cinco ou dez segundos! "Volver a ser, de repente, tan fragil como un segundo, Volver a sentir profundo, como un ninho frente a Dios" (Violeta Parra)
Eu sou de vapor.
Não pensamos nela, não falamos dela.
Vivemos como se fossemos imortais.
E falamos de horóscopos, de novelas e de filmes.
Mas a única certeza absoluta que temos nesta vida é a da morte.
Ela é efetiva.
Ela é matematicamente exata.
E não falamos dela!
E agora via a cara viva da morte. (Cazuza)
E sob esta nova ótica, ainda acreditando que podemos negociar, nos fazemos as fatídicas perguntas:
Eu teria alguma alegação incontestável em meu favor neste momento?
Existe algo que estou fazendo ou farei que é importante para alguém ou para o mundo?
Existe alguma razão para que eu fique mais um tempinho por aqui?
Não!
Não só no meu, mas na maioria dos casos, a resposta será “NÃO!”.
Estive no mundo a passeio. Que desperdício! Que pena! Que mierda!
E quanto mais tempo persistir esta condição, mais você terá que conviver com a ausência do futuro.
Precisamos falar de morte com mais naturalidade e constância. Temos que decidir o que será feito de nossas posses quando as perdermos.
O que será feito de nosso corpo?
E aí vem a constatação alvejada:
Uma continuidade da vida física com um novo estado de consciência só será possível se houver um doador de órgãos. E um doador doa duas vidas ao mesmo receptor. No meu caso foram doados um fígado e uma visão (nova do mundo). E não só no meu, mas na maioria dos casos.
Já que somos todos de vapor.
Precisamos de autocontrole.
Precisamos de humildade para ter desapego, até de nós mesmos.
Precisamos de solidariedade e empatia para nos colocarmos na pele de outras pessoas.
Apesar de ansiarmos muito pelo chamado, o toque do telefone do hospital é apavorante! É um misto de felicidade e medo indescritível, só quem passou por esse momento é capaz de entender.
De repente, tudo se torna real e, ao mesmo tempo, inseguro. É o tudo ou nada: você tanto pode resgatar sua vida como não.
O mais angustiante dessa hora é o que dizer aos filhos. Será que eles sabem o suficiente de como os amamos? Será que ficarão bem se não voltarmos mais? Quem saberá ouvi-los em suas aflições do cotidiano? E o pai? Será que terão paciência para escutá-lo e compreende-lo?
Tudo isso se passou em frações de segundos quando recebemos o telefonema, no dia 6 de março de 2009, por volta das 21 horas. Foi o meu marido quem atendeu e percebi que era a Sol, enfermeira-chefe da CIHDOTT.
Sol !!!!
Com toda sua delicadeza, Sol disse que havia chegado minha hora, que deveríamos fazer a internação até a meia noite daquele dia, mas tínhamos que estar também preparados para voltar. A retirada do órgão doador só iria acontecer por volta das 3 horas da madrugada e só então seria feita o exame final de compatibilidade. Mas, enquanto isso, eu deveria ser preparada no hospital. Se tudo desse certo, o transplante aconteceria no início da manhã. Não era necessário levar nada, só os objetos de higiene pessoal.
Ao desligar o telefone, nos abraçamos e choramos muito. Tinha chegado minha vez! Possivelmente, a espera tinha acabado!
Passado o primeiro impacto - e acalmada a dor de barriga de ambos - fomos dar a notícia às “crianças”: mais choradeira e dor no coração!
Era necessário dar a noticia pelo telefone e despedir deles com otimismo, segurança, na esperança de que não ficassem assustados. Mas meu coração estava apertado. Para cada um em particular eu queria deixar um conselho, falar alguma coisa que os ajudassem em suas vidas, alguma coisa que só mãe consegue sentir em relação à cria. Não sei se consegui, por que chorei muito com todos eles.
Ainda restava o meu marido. Quem iria estar com ele durante as horas de cirurgia? Como ele iria suportar sozinho, a espera e a angústia do resultado de uma cirurgia tão complexa?
E a gente esquece que os filhos crescem e são capazes de decisões sobre nossas vidas!. Logo em seguida, meu filho Gustavo telefonou, anunciando que já estava providenciando sua vinda para Blumenau, de avião e que chegaria provavelmente durante a manhã seguinte, decisão tomada pelo três filhos, para não deixar o pai sozinho. Como fiquei orgulhosa e agradecida, por filhos tão maravilhosos!
Fizemos a internação às 23 horas, e tudo aconteceu com tinha sido dito. Mais exames, radiografias, lavagem, higiene pessoal com produtos específico para evitar infecção, etc.
No Santa Isabel, existe um quarto específico de preparação para quem vai entrar para o transplante, onde tentamos relaxar um pouco durante as horas de espera. Se nada fosse dito até o inicio da manhã, era sinal que o transplante seria feito. É lógico que mal conseguimos cochilar um pouco.
É importante ressaltar que todo procedimento que envolve transplante no país é necessariamente feito pelo SUS (Sistema Único de Saúde), em qualquer Estado da União. No momento em que você escolhe o centro hospitalar e se cadastra em uma fila de espera, tudo é feito e gerenciado pelo SUS.
No caso de Blumenau, foi feita uma ala só para transplantados de fígado e rins, que foi denominada de Clinica Nossa Senhora Aparecida, orgulho do Santa Isabel e com atendimento de primeiro mundo, aos transplantados.
FINALMENTE, BARRIGA VERDE!
Quase todas as pessoas me perguntam se conheço a família do doador. Apesar de parecer uma pergunta natural, ainda é uma pergunta que me incomoda, pois retrata uma idéia criada pela mídia de que isso é o procedimento normal, quando na verdade não é.
Essa decisão da família doadora é feita em um momento de muita fragilidade, com seu ente querido ainda ali presente. Acredito que deva ocorrer um ato de amor extremo por aquela pessoa, de tal modo que ela possa contribuir para que outros vivam.
A doação em Blumenau é feita com toda dignidade possível, de modo sigiloso, respeitando-se tanto o doador como o receptor. Não há por que tornar público esse ato doloroso para os dois lados.
Todos os dias rezo pela família doadora, agradecendo a Deus, a oportunidade de ter recebido um pedaço de uma pessoa que, com certeza, foi muito amada.
Fui para o centro cirúrgico as 08:30 horas do dia 7 de março de 2009. Nunca tremi tanto em minha vida. Me lembro apenas do anestesista se apresentando, e nada mais. Dormi paulista para acordar catarinense, ou barriga-verde, como são chamados.
Meu marido conta que foram quase 9 horas de cirurgia. Durante esse tempo, meu filho Gustavo chegou, conseguindo, enfim, segurar a barra, junto do pai.
Lembro vagamente de suas visitas ao começar a acordar, na UTI, e depois o rostinho da Nuana dizendo que tinha sido tudo um sucesso.
Graças a Deus, tudo foi um sucesso mesmo. Fiquei praticamente 24 horas na UTI, quando o tempo médio é de três dias. Ainda meio grogue pela anestesia , lembro de como fiquei surpresa ao ver os olhos (verdes ou azuis?) do Dr. Mauro Igreja, meu cirurgião e de pensar como era jovem, ainda.
Máscara respiratória devido à baixa imunidade
No quarto, que mais parecia uma suíte, fiquei 12 dias, sendo tratada com muita dedicação, carinho, por todos, desde a higienizadora, até residentes, médicos e o incansável grupo da CIHDOTT, criando uma camaradagem e amizade para o resto da vida.
Quando estava para ter alta do hospital, minha filha Daniela veio de São Paulo com meu genro preferido, Lume, e a gracinha de minha vida, Nuno. Fui recebida no apartamento em grande festa, com uma sopinha de legumes feita por ela. Senti-me uma rainha.
Dia 19 de Maio de 2010
Ficamos ainda em Blumenau por mais três meses, dando oportunidade para que o Marcelo, meu caçula, minha nora querida Fernanda, tão amiga e companheira do Gustavo, pudessem ver como estávamos bem, e eu cada dia melhor , agora sem os olhos amarelos e a cor da pele voltando ao normal, depois de tantos anos de cor indefinida.
Hoje estou com oito meses transplantada, com uma vida normal, comendo normalmente. Lógico, de uma maneira saudável, sem exageros em temperos e começando a estabelecer uma nova rotina de vida.
Volto a cada três meses a Blumenau para controle dos imunossupressores que tomarei por toda a vida, mas feliz e com vontade de escrever uma nova historia para nossas vidas.
Para todos aqueles que de alguma forma contribuíram para o resgate de minha vida, só posso dizer; QUE DEUS OS ABENÇOE!
Olga Marcondes, 57 anos, mas com oito meses de vida.
Os transplantados Hepáticos do HSI se sentem meio blumenauenses e tem enorme carinho e gratidão à cidade de Blumenau/SC e sua população tão forte, querida e bela.
A colega Olga hoje reside em Blumenau/SC com seu marido e é importante representante do Grupo Hércules.
Pois é, depois de certo tempo de espera, na verdade dois anos, o Ministério da Saúde, adotou o sistema Meld para inscrever os candidatos a transplante de fígado.
A ordem agora não seria mais de chegada, mas de gravidade determinada pelo calculo do Meld.
Então, vamos às contas! Soma daqui, estica dali, noves fora nada. Não deu! Meu Meld, na época, girava em torno dos 10, 11; fui para o fim da fila!
Não preciso dizer que fiquei arrasada, me sentia traída, injustiçada, minha vez não vai chegar nunca! Faltando somente 700, vão mudar as regras do jogo!!!
E para piorar a situação, alguns especialistas também criticavam esse método, principalmente para os doentes crônicos, (como alguns consideram os cirróticos) por que os sangramentos não entram nos cálculos.
Esse era o meu caso, amanhecia bem e terminava o dia na Santa Casa.
Bom, vamos ser justos! Na verdade, esse sistema realmente prioriza os mais graves, aqueles pacientes com risco de morte iminente, que não podem esperar muito tempo, como as vítimas de câncer ou crianças, por exemplo. Esses casos já ganham 20 pontos ao entrar na lista.
Também é bom esclarecer que cada centro de transplante adota um referencial, dependendo do número de inscritos. No caso de São Paulo, ele sempre foi muito alto; são poucos órgãos para muitos casos!
Enfim, o jeito era esperar e rezar!
E POR FALAR EM REZAR...
Vamos fazer um intervalo pra falar sobre rezar.
Acredito que toda pessoa que tem uma crença, seja ela qual for, começa a encarar essa espera de outra forma. Reencontra o sentido da Vida, seja ela aqui ou no além. Só Deus é quem sabe, mas acredito que todos nós que passamos por essa experiência, mudamos de pensamento. Damos mais valor a todas as manifestações de Vida, nos sentimos mais solidários com o mundo, mais sensíveis ao sofrimento do ser humano, enfim reaprendemos a falar com Deus, isto é, rezamos.
Rezamos por nós mesmos, por nossa família, por nossos filhos, companheiros, amigos, conhecidos, por aquelas pessoas distantes que não conhecemos, mas desejamos que sejam felizes, que tenham tempo e aguentem a espera!
Não posso deixar de mencionar a importância que foram para mim, as aulas de catequese do Padre Miguel. Como foi importante compreender que o que temos verdadeiramente é o hoje, e por isso devemos vive-lo intensamente, como cristãos.
Praticar a cada momento de nossa vida o primeiro mandamento “Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” por que o futuro não nos pertence. E a Vida é renovação. Tudo morre ao seu tempo e renasce em nova Vida (nem que seja em forma de alface).
O TEMPO FOI PASSANDO
O tempo foi passando. De 2004 a 2007, fiquei literalmente como Carolina: vendo a vida passar pela janela. Não havia condições de planejar o futuro ou ter outra atividade que não fosse a terapia ocupacional dos bordados, cachecóis de teares, enfim, nada que provocasse fadiga e, principalmente nada que impedisse várias idas ao banheiro durante o dia, por que até um copo de água provocava diarréia.
Fui, nessa época, carinhosamente apelidada por minha cunhada de “Nozinha”, por que dava nó a todo convite dela para sair de casa. Não tinha vontade de participar de nada, apesar de gostar de estar com pessoas diferentes. Tinha receio de começar a passar mal ou ter que ir ao banheiro a toda hora, o que era freqüente.
Ao mesmo tempo, fui ganhando uma nova cor, entre o amarelo e o verde musgo, e meus olhos não escondiam mais que meu fígado tinha problemas.
Novamente meu sócio e querido médico sugeriu como recurso de urgência, a implantação de um TIPS, que nada mais é do que uma prótese dentro do fígado, com a função de evitar novas hemorragias.
No entanto, esse procedimento não era feito em nossa cidade. Mais uma vez nos deslocamos para São Paulo, em um vôo de urgência direto para o Hospital da Beneficência Portuguesa, onde um especialista no assunto nos aguardava.
Beleza!!!, Mais um tempo longe da faca e agora sem o risco de novos sangramentos!! VIVAAAAAAAAAAAA!
NUNO CHEGOU! AGORA SOU VOVÓ!!!
Não existe emoção maior do que virar avó, entrar em contato físico com aquele serzinho que é a sua própria continuação, assistir à transformação de sua filha ao tomar nos braços algo gerado por ela, e ao mesmo tempo sentir que uma página nova começa em sua vida.
Acredito que nunca mais vou ver uma cena mais apaixonante do que ao entrar no quarto do hospital e flagrar o primeiro diálogo dela com sua cria, de como teriam que aprender a se conhecer, confessando sua inexperiência para amamentar.
Filha, você é a maior mãe do mundo por que acredito que não basta amar incondicionalmente os filhos, mas é sempre necessário sermos honestas sobre nossos sentimos por vocês, por que nem sempre acertamos e nem sempre somos a mulher maravilha que desejamos ser.
E o Nuno? O que falar dessa coisinha maravilhosa, fofinha, gracinha da vovó? Lógico que é o menino mais lindo, inteligente, esperto e criativo do mundo, além de um futuro grande craque do futebol, para alegria do meu genro preferido (se bem que é o único, só tenho uma filha)
Tenho certeza de que, em razão de sua chegada, meu estado clinico melhorou bastante, a ponto de quase criar rodinha para facilitar as viagens entre minha cidade e São Paulo.
E encerramos o ano de 2007 em grande festa, com o Natal na casa da vovó!
“...Seu caso é de transplante de fígado.” Meu Deus - ele só pode estar brincando!! Eu?! Precisar de um transplante?! Esse médico está doido?!
Acredito que todo mundo que teve um diagnóstico de transplante pensou isso, ou então: "Agora a vaca foi pro brejo! Vou morrer !"
E a família toda saiu em busca de uma cura milagrosa, um chá, uma dieta. Tudo, menos encarar essa realidade com otimismo e informação “auspiciosa” esse procedimento tão importante como é o transplante.
Depois de alguns dias de sofrimento de todos e principalmente do coitado do médico que fez o diagnóstico, a maioria de nós chegou a essa tão admirável fonte de informações que é a Internet, e aí dá-lhe informações e casos!
Costumo dizer que alguns sites são escritos em “mediquês”, isto é, aquela linguagem que só médico entende e olhe lá!
E, finalmente, a ficha caiu e todo mundo começa a se mexer atrás de Centros de Transplantes e aí, sim, para o morador do nosso querido Estado de São Paulo, começa o sofrimento, pois ficamos conhecendo a angústia da fila de espera.
AGORA É SÓ ESPERAR!!!
Muito bem... Sabemos o que temos e sabemos falar o nome de nossa doença, no meu caso Cirrose Biliar Primária, patologia (chique não?) que acomete principalmente mulheres na meia idade!
Ao dar a sentença, meu médico já pediu minha inclusão na lista de espera em um grande hospital de São Paulo.
Naquela época ainda não havia sido adotado o critério do Meld, e a fila era por ordem de chegada, a cronológica.
Calculamos, então que, talvez, entre dois a três anos chegaria a minha vez.
Fomos a São Paulo, consultar um famoso cirurgião, e mais uma esperança!
Com a medicação, talvez, eu nem precisasse de transplante. Havia vários casos de estabilidade da doença só com medicamento.
Era só não descuidar da alimentação - nada de frituras e comidas gordurosas, nada de álcool, nem no casamento do filho, (Gustavo & Fernanda ) – do repouso e dos medicamentos.
Maravilha, o mundo estava salvo!
No fundo, todos acreditamos que não vamos “entrar na faca”.
A DURA REALIDADE!
Nós, mulheres de meia idade, somos mesmo privilegiadas: além de nos faltarem os hormônios, os filhos indo embora, os cabelos embranquecendo e outras coisas caindo, ainda aparece essa tal de “cirrose biliar primária!”
Mas, enfim, somos fortes e aguentamos tudo, por isso a natureza nos fez mães.
Ao anunciar o diagnóstico, meu querido médico e “sócio”, teve a bondade de deixar eu mesma chegar à conclusão que não haveria mais condições de continuar trabalhando. “A cirrose”, no meu caso, provocou varizes de esôfago e por várias vezes elas se romperam, provocando sangramento, o chamado “melena” quando é por intestino.
Foram tantas endoscopias com cauterizações que passei a ser “sócia” do meu médico e freguesa de internações na Santa Casa.
O curioso é que, apesar de meu estado clinico ir aos poucos piorando, eu não me sentia doente. Acho que isso deve acontecer com muitos pacientes, vítimas da cirrose. Sentia fadiga, falta de apetite, a barriga um pouco inchada, mas tudo era tão relativo, poderiam ser sintomas de tantas coisas! Afinal, estava na menopausa e essa, sim, provocava alterações, e não o coitadinho do meu fígado.
Mas a dura realidade é que era ele mesmo o carrasco e, apesar de em alguns períodos parecer que a doença havia estabilizado, os exames, principalmente as ultrassonografias indicavam que a necrose do fígado avançava.
Durante certo tempo, acompanhei, quase diariamente, o meu lugar na fila de espera do transplante. Fazia cálculos mensais para ver como estava indo, conversava com pessoas inscritas pelo Orkut, lia tudo sobre cirrose, e me angustiava quando percebia que alguém da fila não conseguia esperar a sua vez.
Essa fila não anda, gente?! E mais internações, idas a São Paulo etc.
Até que mudaram as regras do jogo, e apareceu o Sr Meld!
Para aqueles que ainda não o conhecem, ”Meld” é a abreviação de um cálculo matemático do resultado de alguns exames de sangue, usado para medir a gravidade dos pacientes de fígado sujeitos a transplante. Ele pode variar entre 6 a 40 e é por meio dele que sabemos se estamos próximos ou distantes do transplante...